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sexta-feira, 25 de março de 2011

MAIS UM PETISCO

Uma história de leitura em um poema, cutam!!!


BIBLIOTECA VERDE

Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.
São só 24 volumes encadernados
em percalina verde.
Meu filho, é livro demais para uma criança.
Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
Quando crescer eu compro. Agora não.
Papai, me compra agora. É em percalina verde,
só 24 volumes. Compra, compra, compra.
Fica quieto, menino, eu vou comprar.
Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel.
Me mande urgente sua Biblioteca
bem acondicionada, não quero defeito.
Se vier com um arranhão recuso, já sabe:
quero devolução de meu dinheiro.
Está bem, Coronel, ordens são ordens.
Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro,
fino caixote de alumínio e pinho.
Termina o ramal, o burro de carga
vai levando tamanho universo.
Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiros toda verde. Sou
o mais rico menino destas redondezas.
(Orgulho, não; inveja de mim mesmo)
Ninguém mais aqui possui a coleção
das Obras Célebres. Tenho de ler tudo.
Antes de ler, que bom passa a mão
no som da percalina, esse cristal
de fluida transparência: verde, verde.
Amanhã começo a ler. Agora não.
Agora quero ver figuras. Todas.
Templo de Tebas. Osíris, Medusa,
Apolo nu, Vênus nua... Nossa
Senhora, tem disso nos livros?
Depressa, as letras. Careço ler tudo.
A mãe se queixa: Não dorme este menino.
O irmão reclama: Apaga a luz, cretino!
Esparmacete cai na cama, queima
a perna, o sono. Olha que eu tomo e rasgo
essa Biblioteca antes que pegue fogo
na casa. Vai dormir, menino, antes que eu perca
a paciência e te dê uma sova. Dorme,
filhinho meu, tão doido, tão fraquinho.
Mas leio, leio. Em filosofias
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver. Como te devoro,
verde pastagem. Ou antes carruagem
de fugir de mim e me trazer de volta
à casa a qualquer hora num fechar
de páginas?
Tudo que sei é ela que me ensina.
O que saberei, o que não saberei
nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente.
...

(Fonte: ANDRADE, Carlos Drummond. Carlos Drummond de Andrade. São Paulo: Abril Educação, 1980. p.67-68. (Literatura Comentada))

quinta-feira, 24 de março de 2011

MAIS POESIA BRASILEIRA NOTA 10


EVOCAÇÃO DO RECIFE

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos amadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois -
                        Recife das revoluções libertarias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

A rua da união onde eu brincava de chicote-queimado e partia as
                                      [vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio  Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta
                                                                                         [ do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras,
                                                      [ mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:

                       Coelho sai!
                        Não sai!

À distância as vozes macias das meninas politonavam:

                        Roseira dá-me uma rosa
                        Craveiro dá-me botão

(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
 

De repente
                    Nos longes da noite
                                                       Um sino

Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antonio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo

Rua da União...
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
                           ... onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era a Rua da Aurora...
                           ... onde se ia pescar escondido
Capiberibe
- Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá


Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
                  Foi o meu primeiro alumbramento

Cheias! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho
                                                                                              [ sumiu
e nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos
                                                       [ em jangadas de bananeiras
Novenas
                  Cavalhadas
Eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão nos
                                                                                  [ meus cabelos
Capiberibe
_ Capiberibe

Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
                    Com o xale vistoso   de pano da costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
                          que se chamava midubim e não era torrado era
                                                                                        [cozido
Me lembro de todos os pregões:
                   Ovos frescos e baratos
                   Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha pelo povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
                  Ao passo que nós
                  O que fazemos
                   É macaquear
                   A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam

Recife...
                 Rua da União...
                                    A  casa de meu avô...
Nunca pense que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade

Recife...
                   Meu avô morto.
Recife morto. Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô.
                                                                                                  
                                                                                               Rio, 1925
( Manoel Bandeira - L, 1930)

quarta-feira, 23 de março de 2011

LEITURA DE POESIA



       

As coisas tinham para nós uma desutilidade poética.
Nos fundos do quintal era muito riquíssimo o nosso
dessaber.
A gente inventou um truque pra fabricar brinquedos
com palavras.
O truque era só virar bocó.
Como dizer: Eu pendurei um bentevi no sol...
O que disse Bugrinha: Por dentro de nossa casa passava
um rio inventado.
O que nosso avô falou: O olho do gafanhoto é sem
Princípios.
Mano Preto perguntava: Será que fizeram o beija-flor
diminuído só pra ele voar parado?
As distâncias somavam a gente para menos.
O pai campeava campeava.
A mãe fazia velas.
Meu irmão cangava sapos.
Bugrinha batia com uma vara no corpo do sapo e ele
virava uma pedra.
Fazia de Conta?
Ela era acrescentada de garças concluídas.

(Manoel de Barros - LN. 1996 )

               

   INFÂNCIA

A Abgar Renault


Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
cumprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou o mosquito.
E dava um suspiro ... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
Era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

(Carlos Drummond de Andrade - AP. 1930)