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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Uma proposta para trabalhar crônica




Reunidos no calçadão central da Avenida Atlântica, entre as Ruas Sousa Lima e Sá Ferreira, dezenas de cães participaram sábado à tarde de um comício autorizado, em principio, pela Administração Regional de Capacabana. Eram cachorros das mais variadas raças e dos mais diferentes tamanhos, desde Pastores Alemães até miniaturas Pintcher. Junto ao meio-fio, no local da concentração, um carro-choque do Batalhão de Gatos, armados de unhas e dentes, garantia a ordem.
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O primeiro a subir ao tablado, que era um engradado de refrigerantes emborcado, foi um Poodle branquinho, de rabinho cotó.
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- Nossos donos são irresponsáveis! - gritou ele.
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- Abaixo os donos irresponsáveis! - respondeu a multidão raivosa (embora toda ela vacinada).
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- Todo o poder aos cachorros! - prosseguiu veemente o Poodle branco, cujo focinho lembrava vagamente o de Jane Fonda, e que era tido, entre o Posto 6 e o Posto 4, como o líder inconteste do Dog-Power.
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Em seguida, pediu a palavra um Weimaraner azulado, de olhos tristes. Do alto do caixote, falou ponderadamente:
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- Meus modos, if... if... (estava chorando, o coitado)... Meus modos refletem os do meu dono... Não quero mais, if... if... Não quero mais passar vergonha sujando a calçada!
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- Nós também não! - responderam em uníssono os manifestantes caninos. Lá do meio do povo, alguém latiu com voz de Pointer:
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- Nossos donos precisam aprender que lugar de cachorro fazer suas "coisas" é em casa!
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- Bravo! Apoiado! - concordou a cãonalhada.
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- Pipi-dog! Queremos pipi-dog! - puseram-se a ladrar umas cadelinhas Basset, cinco ou seis, provavelmente da mesma ninhada. - Somos moças de família, e portanto temos direito a um lugar no apartamento, onde possamos fazer a nossa toalete sem que os intrusos invadam a nossa privacidade!
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- Muito bem! Falou! Podem crer! - entoaram em coro as cinco Dobermans que moram no Edifício Chopin, um dos mais luxuosos de Copacabana, e que fazem pipi - vejam só a heresia! - na piscina do Capacabana Palace, que fica logo ali ao lado.
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Agora, estava no tablado um musculoso Boxer, com sua cara abobalhada e seu tradicional bom coração.
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- Senhoras e senhores - disse ele - sejamos objetivos. Desejo colocar em votação uma proposta simples, de três pontos, a qual, se aprovada, será encaminhada aos nossos donos, em forma de abaixo-assinado. Primeiro ponto:
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- "Quero meu pipi-dog no apartamento."
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- Apoiado! - gritou a assembléia.
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- Segundo ponto... Mas, antes, para evitar tumulto, prefiro que os distintos companheiros, em vez de latirem, ladrarem, rosnarem e coisa e tal, balancem o rabo em sinal de aprovação. Aqueles que não mais possuem rabo poderiam uivar, mas docemente, pois uma de nossas preocupações principais há de ser a de não agravar a poluição sonora, de maneira a não indispor a opinião pública contra a nossa causa...
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Todos balançaram o rabo, em silêncio. A questão do orador fora aceita. Ele então prosseguiu:
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- Segundo ponto: - "Queremos fazer nosso cooper canino apenas no calçadão central da Avenida Atlântica..."
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Rabinhos balançaram para lá e para cá: aprovado.
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- Terceiro ponto: - "É preferível que não nos levem à praia, onde involuntariamente causamos uma porção de doenças!"
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Rabinhos alegres: de acordo.
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- Desta forma - finalizou o Boxer - poderemos afirmar que somos felizardos e que temos donos educados!
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- Nosso dono vai ser super legal! - exclamou a assembléia, esquecendo a recomendação de só balançar o rabo.
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Nessa altura, todos ali estavam com vontade de fazer cocô e pipi. Sendo assim, o Poodle branco decidiu dar por encerrada a reunião, recomendando que os manifestantes se dispersassem em ordem.
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Mas nesse instante pulou no caixote um autêntico Vira-Lata, magrinho, de olhos famintos, as costelas aparecendo sob o pêlo ralo, o rabo entre as pernas.
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- Irmãos! - bradou ele, ou melhor, soltou essa palavra num gemido. - Irmãos! Todos somos irmãos! Todos os cachorros são iguais! Portanto, o verdadeiro problema não está no pipi-dog doméstico nem no pinicão de apartamento. O necessário é que todos nós, os de pedigrees e os da rua, dos de raça e os vira-latas, tenhamos, todos, direito aos cuidados veterinários periódicos, à vacinação gratuita, à alimentação farta e balanceada, à coleira protetora com sua placa de identificação, aos banhos seguidos de talco contra pulgas... Viva pois a revolução! Todo o poder aos cachorros, sem distinção de raça, cor ou credo!
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- Uh! Fora! - gritaram os cães de luxo, que pertencem todos, naturalmente, à Direita, e preferem que as coisas continuem como estão, no plano mais amplo da justiça social. - Fora! Sarnento! Babão! Comedor de restos! Ralé!
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A multidão de sócio do Kennel Club avançou na direção do anarquista, rosnando ameaçadoramente. Foi preciso que os gatos salvassem o Vira-Lata do linchamento inevitável, porque o cercaram, dispersando a cachorrada ululante com bombas de gás lacrimogêneo.
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Em seguida, o Batalhão de Gatos levou o Vira-Lata para o lugar adequado a essa espécie de agitador. Ele agora está sendo processado e é capaz de passar o resto da vida num canil-presidio. Acusação: trata-se de um CÃOMUNISTA.

CONTEÚDO PROGRAMÁTICO

“Cãomício” no calçadão: alegorização de um período crítico 


·         Narrador na 3ª pessoa;
·         Descrição atenta do espaço;
·         O tempo da realização do “Cãomício” não é explicito na crônica é subentendido por causa dos acontecimentos ocorridos numa determinada época no Brasil, por isso há a necessidade de recontextualização;
·         Crônica alegórica ao estilo das fábulas de Esopo, cães, animais mamíferos, carnívoros são personificados e agem como os seres humanos;
·         Linguagem simples;
·         As frases são curtas;
·         Assunto aparentemente banal;
·         Estranhamento “ Batalhão de Gatos, armados de unhas e dentes, garantia a ordem.”_ ironia;
·         Primeiro a falar Poodle branco, na esfera social representa homem branco que detém o poder, líder. Chama a atenção para a irresponsabilidade dos donos;
·          Narrador irônico: “ _ respondeu a multidão raivosa (embora toda ela vacinada).”
·         A crônica fala sobre cachorro, mas há momentos que o narrador se refere a eles em termos que designam pessoas, multidão, povo; (pessoas transfiguradas em cachorros);
·         O segundo a ter o direito a voz é o cachorro Weimaraner azulado repete o paradigma, mas diz querer mudar;
·                    Na indicação de lugares é explicito o poder aquisitivo dos cachorros, ruas, bairros e prédio de luxo;
·          O narrador deixa implícito que esses lugares luxuosos de algum modo estão corroídos, a exemplo, o cachorro azulado faz xixi na pisciana do Copacabana Palace;
·         3º a falar, Boxer de cara abobalhada, bom coração  faz em proposição de forma organizada, propõe uma abaixo assinado e demonstra preocupação com a opinião pública e a saúde;
·             O momento de tensão começa com aparecimento do vira-lata na cena  propondo igualdade entre as raças;
·         Os cães de luxo pertencem a direita, representam o poder, não querem mudança: “plano mais amplo da justiça social”;
·         Vira-lata, pertence  esquerda, recebe rótulo de agitador, comunista deve ser silenciado.
·         O narrador é astuto, apresenta passagens humorísticas, mesclados aos aspectos  revoltantes da desigualdade de distribuição de renda no Brasil. 
·         Podemos depreender que na crônica os cachorros de raça representam o poder, a classe dominante e o vira-lata pertence à classe proletária começando lentamente a se organizar em sindicatos para lutar por seus no final da década de 60 e início da década de 70.

CACHORROS DE RAÇA
CACHORRO VIRA-LATA
·         Cachorros de raça sentem-se bem no paradigma, representam o poder, por isso saem triunfantes, gosto pela comodidade, hipocrisia;
·         Indiferença à raça de híbrida;
·         Permanência do estado de costume;
·         Individualismo, bem próprio;
·         Silenciamento para a questão da justiça social;
·         Raiva, ira com a proposição de justiça social
·         Fortes, garantem a permanência de estado.
·         Cachorro vira-lata contesta o paradigma vai preso, desacreditado e miserável.
·         Tentativa de mudança;
·         Utopia da igualdade de raça;
·         Coletividade, bem de todos;
·         Ideal de socialismo, justifica o comunismo;
·         Propõe deslocar o paradigma da justiça social, por isso é silenciado;
·         Fraco, propõe diferença, pluralidade.

  • Oliveira ficcionaliza  um dado da realidade do Brasil no período da ditadura militar, para denunciar as injustiças sociais.
  • Através da alegoria oliveira ilustra esteticamente a passagem de acontecimentos de período negro da política brasileira, que serve de reflexão para as questões políticas e sociais para leitores de todas as épocas.


e u...
4 meses atrás
PahiNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNMMLKJEWQEEEEEENNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNMNNMNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNBsageiros...
história

O VENENO DO AMOR - JANAINA RAMOScoração apaixonado / Pela flecha que corta o pulsar / Do amor que corre pelas veias. / A embriaguez pelo delírio / De sugar o sangue ferido / Pela flecha do amor. / Renasce de teus seios / A treva da vida e a essência / Da morte suspira oscilante / Num sonho de despudor / E no sono nunca despertado.
veias. / A embriaguez pelo delírio / De sugar o sangue ferido / Pela flecha do amor. / Renasce de teus seios / A treva da vida e a essência / Da morte suspira oscilante / Num sonho de despudor / E no sono nunca desperta

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